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Janeiro Branco: saúde mental começa na rotina e nas escolhas do cotidiano

A Terapia Ocupacional ensina que a organização da vida diária, os vínculos sociais e as atividades com sentido são elementos que promovem o bem-estar psíquico


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Publicado em: 12/01/2026

“Cuidar da saúde mental é, antes de tudo, cuidar da vida que se constrói nos pequenos gestos do cotidiano”

Entrevista ao Crefito-3 da Dra. Sabrina Slivinskis, terapeuta ocupacional, sobre o Janeiro Branco e o papel da Terapia Ocupacional nesse contexto

Dra. Sabrina Slivinskis é terapeuta ocupacional, conselheira suplente do Crefito-3, coordenadora da Câmara Técnica de Saúde Mental do Crefito-3, mestre em Psicogerontologia, especialista em Saúde Mental e em Dependências pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), dentre outros títulos.

O Janeiro Branco propõe uma reflexão sobre a saúde mental no dia a dia. Como a rotina influencia o bem-estar psíquico das pessoas?

A saúde mental está profundamente relacionada à forma como as pessoas organizam, sentem e atribuem sentido às suas ocupações. Na Terapia Ocupacional, compreendemos as ocupações como tudo aquilo que estrutura o cotidiano e dá sentido da vida como por exemplo as Atividades de Vida Diária (AVDs), Atividades Instrumentais de Vida Diária (AIVDs), o descanso e o sono, o estudo, o trabalho, o lazer, o brincar e a participação social.

Quando essas ocupações estão equilibradas, significativas e compatíveis com as condições físicas, emocionais e sociais do indivíduo, elas funcionam como fator de proteção psíquica, promovendo identidade, pertencimento, autonomia e propósito ao viver. Por outro lado, rotinas marcadas por sobrecarga, privação de descanso, ausência de lazer, isolamento social ou perda de papéis ocupacionais importantes tendem a gerar sofrimento psíquico trazendo prejuízos para a saúde mental.

O Janeiro Branco nos convida justamente a olhar para o cotidiano como espaço central de cuidado em saúde mental, reconhecendo que o bem-estar não se constrói apenas em momentos pontuais, mas na forma como a vida é organizada e vivida todos os dias.

Considerando sua experiência como terapeuta ocupacional especialista em Saúde Mental, de que forma a organização do cotidiano pode atuar para proteger ou comprometer a saúde mental?

A organização do cotidiano pode ser tanto um fator de proteção quanto de risco, dependendo de como as atividades estão distribuídas, do nível de exigência imposto à pessoa e da possibilidade de escolha e autonomia sobre sua própria rotina.

Como fator de proteção, destacam-se rotinas que contemplam equilíbrio entre produtividade, autocuidado, lazer e descanso; previsibilidade associada à flexibilidade; vínculos sociais ativos; e atividades que tenham significado pessoal. Essas condições favorecem a regulação emocional, a sensação de controle sobre a própria vida e a construção de projetos futuros.

Como fator de risco, observamos cotidianos rigidamente estruturados, excessivamente produtivistas, sem espaços de pausa, prazer ou convívio social, ou ainda rotinas desorganizadas, marcadas por ociosidade forçada, desemprego, exclusão social ou rupturas de vínculos. Nesses contextos, o sofrimento psíquico tende a se intensificar, especialmente quando não há suporte social ou acesso a políticas de cuidado.

Considerando sua atuação em CAPS e na gestão do SUS, quais desafios relacionados à saúde mental no cotidiano você considera mais recorrentes na população atendida?

Na experiência em CAPS e na gestão do SUS, alguns desafios se mostram recorrentes no cotidiano da população atendida. Entre eles, destacam-se a precarização das condições de vida, o estigma, o desemprego ou trabalho informal, a sobrecarga de responsabilidades familiares, a violência urbana e doméstica, o uso problemático de álcool e outras drogas, além da fragilização das redes de apoio social.

Outro desafio importante é a dificuldade de reorganização do cotidiano após crises em saúde mental, internações psiquiátricas ou longos períodos de adoecimento, quando a pessoa perde vínculos, papéis sociais e referências de rotina. Nesses casos, o sofrimento não está apenas nos sintomas clínicos, mas na dificuldade de retomar uma vida cotidiana com sentido, autonomia e participação social.

Esses desafios reforçam a importância de uma rede de atenção psicossocial territorializada, intersetorial e centrada na vida real das pessoas, princípio fundamental da Política Nacional de Saúde Mental.

Na atenção às pessoas com dependências, como a Terapia Ocupacional contribui para a reconstrução de rotinas saudáveis e para a reabilitação psicossocial?

Na atenção às pessoas com dependências, a Terapia Ocupacional atua diretamente na reconstrução do cotidiano, que muitas vezes se encontra organizado em torno do uso da substância ou do comportamento compulsivo. O trabalho terapêutico envolve apoiar a pessoa na retomada do desejo, de atividades de autocuidado, na reconstrução de vínculos sociais, no acesso ao trabalho, à educação, à cultura e ao lazer, respeitando o tempo e a singularidade de cada trajetória.

A partir de projetos terapêuticos singulares, o terapeuta ocupacional auxilia na criação de rotinas mais estáveis, no desenvolvimento de habilidades para a vida diária, no fortalecimento da autonomia e na ampliação de repertórios ocupacionais que não estejam associados ao uso. Essa reconstrução do cotidiano é um eixo central da reabilitação psicossocial, pois favorece a ressignificação do uso, redução de recaídas, o fortalecimento da identidade e a reinserção social, alinhada aos princípios da atenção psicossocial e da redução de danos.

Considerando o envelhecimento da população, quais cuidados com a saúde mental merecem destaque na rotina de pessoas idosas?

Com a transição demográfica pelo envelhecimento da população, torna-se fundamental olhar para a saúde mental das pessoas idosas a partir de uma perspectiva integral. Entre os cuidados que merecem destaque estão a manutenção da participação social, o estímulo à autonomia nas atividades da vida diária, a preservação de papéis sociais significativos e o acesso a atividades culturais, educativas e de lazer.

O isolamento social, a perda de vínculos, o luto, a aposentadoria mal elaborada e a redução das oportunidades de participação são fatores que podem impactar negativamente a saúde mental na velhice. Por isso, a organização de uma rotina que favoreça o convívio, o movimento, o exercício da memória, o sentimento de utilidade e pertencimento é essencial para a promoção do bem-estar psíquico e para a prevenção de quadros depressivos e ansiosos.

Que orientações práticas você indica para as pessoas adotarem, no cotidiano, hábitos que beneficiem a saúde mental?

Algumas orientações práticas podem contribuir para a promoção da saúde mental ao longo de todo o ano como: valorizar o equilíbrio entre trabalho, descanso, lazer e autocuidado, reconhecendo limites e evitando a naturalização da sobrecarga; construir rotinas possíveis, flexíveis e compatíveis com a singularidade de cada um, evitando comparações irreais; manter e fortalecer vínculos sociais, reconhecendo o convívio como fator essencial de proteção em saúde mental; reservar espaços no cotidiano para atividades que tenham significado, prazer e sentido pessoal; buscar ajuda profissional sempre que o sofrimento psíquico interferir na vida diária, compreendendo o cuidado em saúde mental como direito e não como fragilidade.

Cuidar da saúde mental é, antes de tudo, cuidar da vida que se constrói nos pequenos gestos do cotidiano. É no modo como acordamos, trabalhamos, descansamos, nos relacionamos e sonhamos que o sofrimento encontra espaço ou encontra cuidado. O Janeiro Branco nos convida a colocar uma lente de aumento em tudo aquilo que, muitas vezes, passa despercebido como o ritmo da vida, os silêncios, as pausas necessárias, os encontros que sustentam.

Que ao longo de todo o ano possamos olhar para o cotidiano não como uma obrigação a ser suportada, mas como território vivo de cuidado, onde cada rotina pode ser redesenhada com mais humanidade, sentido e dignidade. Porque saúde mental não se constrói apenas em datas simbólicas, mas no compromisso diário de tornar a vida possível, habitável e, sempre que puder, um pouco mais leve.