No Dia do Hospital, destaque para a Fisioterapia e a Terapia Ocupacional no ambiente hospitalar
Importância da participação como membro da equipe multiprofissional, aprendizados e desafios são relatados por profissionais que atuam na assistência aos pacientes hospitalizados

O dia 2 de julho, no Brasil, marca a celebração do Dia do Hospital. 


Local que, mais do que espaço para recuperação e cura de doentes, também se converteu em ambiente de ensino e pesquisa das diversas ciências da área da saúde, os hospitais contam, há muitas décadas, com a presença de fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais.


Sejam hospitais públicos ou privados; sejam hospitais gerais ou de especialidades, a atuação de fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais no ambiente hospitalar tem características muito próprias e que, em alguns aspectos, se diferenciam muito da atuação de seus colegas em clínicas e consultórios.


A fisioterapeuta Dra. Estela Sofia Cabral, especialista em Fisioterapia em Terapia Intensiva e em Fisioterapia  Neonatal e Pediátrica, atua em hospitais desde que concluiu a graduação, há 28 anos.


Ela explica que, em relação à realidade do fisioterapeuta que atua em clínicas, consultórios, ou na atenção primária, as diferenças são muitas - a começar pelo horário de trabalho, que pode incluir plantões noturnos, ou plantões em finais de semana e feriados. 


As demandas, próprias do ambiente hospitalar, tendem a ser muito específicas. “Todas as rotinas e todos os fluxos de trabalho da equipe de Fisioterapia são condicionadas à realidade de cada ambiente hospitalar”, explica Dra. Estela. 


Atuação como membro da equipe multiprofissional é um diferencial


Ela destaca também  que o paciente assistido pelo fisioterapeuta dentro de um hospital  é muito diferente dos pacientes atendidos em clínicas. “Ele tende a ser, naturalmente, um paciente mais agravado, que requer conhecimentos e cuidados muito específicos”.


Dentre esses conhecimentos específicos - que precisam ser constantemente atualizados - Dra. Estela relata aqueles necessários à atuação em uma UTI."Como o fisioterapeuta atua em condutas em um certo grau invasivas, ele precisa acompanhar tudo em relação a cada paciente: exames de imagem, exames laboratoriais, farmacologia. Precisa saber se o paciente está com uma droga vasoativa prescrita, por exemplo. São conhecimentos e informações bem específicas”.


Dra. Estela acredita que a característica mais evidente da atuação do fisioterapeuta em hospitais é a vivência como membro de uma equipe multiprofissional, que se reúne e planeja em conjunto, em equipe, toda a atenção a cada paciente. “Numa UTI,  por exemplo, a evolução do paciente é diária. Então, cada ação precisa estar muito bem documentada no prontuário do paciente - datas, horários, intercorrências e outras informações - sempre lembrando que os colegas da equipe multi também vão precisar daquelas informações. 


Alerta para a perda de foco nas especificidades da atuação do fisioterapeuta


O fisioterapeuta Dr. Luis Antonio Nunes, graduado em 1989, especialista em Fisioterapia Respiratória e em Terapia Intensiva e, atualmente, fisioterapeuta na UTI do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, também vê como diferencial da atuação da Fisioterapia na área hospitalar a proximidade com toda a equipe multiprofissional. Ele também considera que o envolvimento do fisioterapeuta com o caso específico de cada paciente acaba sendo maior do que ocorreria, em comparação, com um paciente do atendimento ambulatorial. “No hospital, a interlocução entre os membros da equipe é muito grande”, revela Dr. Luis.


Embora seja um entusiasta da atuação dos fisioterapeutas nos hospitais, e do quanto a interação com a equipe multi enriquece com conhecimento todos os componentes da equipe, Dr. Luis vê com preocupação um fato que, já há algum tempo, ele percebe como um problema para a Fisioterapia. “Se, por um lado, a proximidade da equipe multiprofissional é benéfica para o paciente, por outro, essa proximidade tem provocado uma “confusão” entre as fronteiras de atuação de cada profissão”. Ele esclarece: “Em muitos hospitais, o fisioterapeuta participa de intervenções ao lado do médico, ao lado da enfermagem, que nada têm a ver com Fisioterapia”. 


Para Dr. Luis, muitos fisioterapeutas em hospitais têm se afastado de seu papel original; “O fisioterapeuta deve deixar muito claro o seu papel na equipe”, aconselha. “Não é possível priorizar o compartilhamento de atividades com equipe, e, ao mesmo tempo, fazer, exclusivamente, a Fisioterapia. Em casos assim, a busca pela mobilização e independência funcional do paciente estão ficando em segundo plano. E o paciente sai perdendo". 



Identificação com área materno-infantil ainda limita atuação da Terapia Ocupacional nos hospitais


Embora a Terapia Ocupacional já esteja presente há décadas em ambientes hospitalares, foi apenas há 8 anos que a atuação em contextos hospitalares foi formalmente reconhecida como área de especialidade da Terapia Ocupacional pelo Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional. 


A Resolução Coffito nº 429, de 8 de julho de 2013, que reconhece e disciplina a especialidade  de Terapia Ocupacional em Contextos Hospitalares é, inclusive, uma das duas únicas Resoluções de Conselhos de fiscalização do exercício profissional que reconhecem formalmente a atuação profissional em cuidados paliativos. A outra profissão a reconhecer essa área de atuação é a Medicina. 


A atuação em cuidados paliativos é, segundo a terapeuta ocupacional Dra. Gabriela Pereira do Carmo, uma, dentre as muitas possibilidades de atuação do terapeuta ocupacional em contextos hospitalares. Dra. Gabriela atua na UTI do Hospital Municipal Carmino Caricchio, em São Paulo.


“Além da atuação assistencial, à beira leito, na internação, ou em serviços ambulatoriais dos hospitais, o terapeuta ocupacional  também pode estar presente nos grupos de educação permanente, grupos de cuidados paliativos,  equipes de humanização, equipes de acolhimento familiar. Pode ainda atuar na atenção à saúde dos trabalhadores, na área de saúde mental, dentre outras atividades”.


Segundo Dra. Gabriela, um trabalho publicado em 2020 pela Revista Brasileira de Terapia Ocupacional revelou que as práticas do terapeuta ocupacional no ambiente hospitalar ainda acontecem, prioritariamente, na assistência materno-infantil. “Em outras faixas etárias, a atuação da Terapia Ocupacional se encontra em processo de expansão”. 

Para Dra. Gabriela, um dos principais desafios atuais da Terapia Ocupacional se refere à ampliação da presença do terapeuta ocupacional nas UTIs.”Mesmo após a publicação da RDC-7 da Anvisa, em 2010, que prevê a atuação do terapeuta ocupacional nas UTIs,  a presença desse profissional em UTI adulta, segundo censo de 2017 da Associação de Medicina Intensiva Brasileira, era de cerca de 8% em instituições de todo o Brasil.


Presença ainda restrita nas UTIs é desafio


Dra. Gabriela lamenta esse cenário, e destaca que as intervenções do terapeuta ocupacional nas UTIs já são bastante reconhecidas por seus impactos positivos  nos aspectos de funcionalidade, diminuição de comorbidades e diminuição do tempo de internação dos pacientes.


“A Terapia Ocupacional atua com intervenções para o  desempenho de atividades de vida diária, estimulando, adaptando as participações dos pacientes nas tarefas, sempre que possível,  principalmente na alimentação e autocuidado. O terapeuta ocupacional também atua na  identificação e gerenciamento não-farmacológico de prevenção ou redução de delírium, além de realizar facilitar o uso de recursos de comunicação alternativa e ampliada na UTI”.