09 de agosto: Dia Nacional da Equoterapia
Equoterapia é um método terapêutico e educacional, que utiliza o cavalo dentro de uma abordagem multidisciplinar, nas áreas de saúde, educação e equitação, buscando o desenvolvimento biopsicossocial da pessoa com deficiência.

Nesta segunda-feira, dia 9 de julho, é celebrado o Dia Nacional da Equoterapia. A data foi instituída em 29 de outubro de 2009 por meio da Lei nº 12.067/2009. Em 13 de maio de 2019, a Presidência da República sancionou a Lei nº 13.830/2019, que dispõe sobre a prática da Equoterapia. A Equoterapia é um método terapêutico e educacional, que utiliza o cavalo dentro de uma abordagem multidisciplinar e interdisciplinar, nas áreas de saúde, educação e equitação, buscando o desenvolvimento biopsicossocial de pessoas com deficiências.


De acordo com a Associação Nacional de Equoterapia (ANDE-Brasil), “a Equoterapia emprega o cavalo como agente promotor de ganhos em nível físico e psíquico. Esta atividade exige a participação do corpo inteiro, contribuindo, assim, para o desenvolvimento da força muscular, relaxamento, conscientização do próprio corpo e aperfeiçoamento da coordenação motora e do equilíbrio. A interação com o cavalo, incluindo os primeiros contatos, os cuidados preliminares, o ato de montar e o manuseio final desenvolvem, ainda, novas formas de socialização, autoconfiança e autoestima.” A Fisioterapia e a Terapia Ocupacional encontram na Equoterapia um vasto campo de atuação. A Equoterapia é um termo amplo, que se refere às várias áreas que empregam o cavalo por equipes multidisciplinares, com objetivos terapêuticos variados. 


Atuação da Fisioterapia


O fisioterapeuta Dr. Fernando Guimarães foi o pioneiro no Brasil em Hipoterapia, um dos três programas básicos da Equoterapia, que consiste em um método terapêutico e educacional que utiliza o cavalo em uma atividade que envolve profissionais da área de saúde, educação e equitação. Dr. Fernando realizou um estágio na Áustria e, ao retornar ao Brasil, implementou a técnica de Hipoterapia e começou a trabalhar com cavalos. “Quando vim ao Brasil, em 1989, eu trouxe o método como Hipoterapia, foi assim que aprendi na Europa e nos Estados Unidos. A base, a fundamentação da Equoterapia e da Hipoterapia é a mesma”. Em uma matéria ao Portal Cavalus, Dr. Fernando contou que foi o primeiro a trabalhar com a técnica no Brasil e também o primeiro fisioterapeuta latino-americano a se apresentar no Congresso Mundial de Hipoterapia na França, em 2000.


“Cavalo é movimento. Os fisioterapeutas se utilizam dos movimentos do animal para quebra de padrão, medicina de reflexo, pontos-chave”, explica Dr. Fernando. Ele acrescenta que “o fisioterapeuta é o mediador mais importante, tanto que a equipe de Equoterapia é formada por um psicólogo, um professor de equitação e o fisioterapeuta e, normalmente, é o fisioterapeuta que comanda a equipe.” Segundo Dr. Fernando, a Equoterapia é indicada para qualquer patologia do sistema nervoso central, como Encefalopatia crônica não progressiva (Paralisia Cerebral), Acidentes Vasculares Encefálicos (AVEs), Parkinson, Esclerose Múltipla, traumatismos cranianos encefálicos, lesões medulares. “Hoje, estamos tendo uma leva muito grande de pacientes com TEA (Transtorno do Espectro Autista), Síndrome de Down, problemas de coluna, pacientes que apresentam falta de foco e atenção, crianças com falta de autoestima, de auto confiança, pacientes com depressão.  Em relação às melhoras partimos de dois princípios: usamos a melhora motivacional, onde o paciente está fora do ambiente médico, de sala terapêutica, montando um ser que é mais forte que o paciente. Estar em cima de um cavalo não é algo tão simples. Através do sistema motivacional, temos a melhora da autoestima, da confiança, da independência, foco e atenção, relações interpessoais, pois, através do cuidado com o cavalo o paciente vai interagindo, trocando informações. Quanto à parte motora, as reações de proteção e equilíbrio, melhora da qualidade do tônus, diminuição de espasticidade muscular, simetria, fortalecimento e alongamento de diversos grupos musculares, mobilizações articulares, mudanças posturais. Sempre como complementação das terapias convencionais”, acrescenta. 


Atuação da Terapia Ocupacional 


De acordo com a terapeuta ocupacional Dra. Rebecca Martins, os primeiros benefícios da prática equestre foram identificados na Grécia antiga, por Hipócrates (377 a.C.), referindo-se a esta como eficiente para o tratamento da insônia e também para o desenvolvimento do tônus muscular do cavaleiro. “Os benefícios da equitação começaram a tomar maior proporção em estudos científicos no século XX, com maior projeção na Europa, especialmente na França que apresentou o primeiro congresso sobre o tema em 1974. No Brasil a prática da Equoterapia adquiriu reconhecimento através da ANDE”. 


Dra. Rebecca destaca que a Equoterapia pode ser indicada para quadros diversos que envolvam déficits em aspectos motores/ neuromotores, tais como movimento, coordenação, regulação de tônus muscular, psicomotores /intelectuais, comportamentais/ relacionais e sensoriais. “Em muitos centros de Equoterapia, os quadros predominantes são Encefalopatia não evolutiva (Paralisia Cerebral), Autismo e Síndrome de Down, principalmente”. A terapeuta ocupacional também acrescenta as contra indicações da Equoterapia. “É importante ter uma avaliação cuidadosa, pois algumas considerações podem ser relativas. Deformidades de quadril, luxações, deformidades de coluna (escoliose maior que 30-40 graus), estados pós cirúrgicos, instabilidade atlantoaxial e hiperfrouxidão ligamentar em alguns casos de crianças com Síndrome de Down, epilepsia não controlada, alergias entre outros.” 


Terapeutas Ocupacionais fazem parte da equipe multidisciplinar que compõem muitos centros de Equoterapia. As intervenções nesse método devem ser realizadas por um grupo de trabalho base composto por um mediador (terapeuta), auxiliar lateral e auxiliar guia que trabalharão em conjunto com o cavalo. “Dentro de seu campo de intervenção ligado à atividade humana, o terapeuta ocupacional tem formas diversas de traçar objetivos e procedimentos no contexto da análise de atividades voltados para o plano terapêutico com ênfase no praticante, no cavalo, com características adequadas para o quadro (tamanho, ritmo, cadência, frequência e comprimento da passada), no ambiente e na seleção de equipamentos. Após avaliação e identificação das demandas, o paciente elegível inicia o acompanhamento que pode estar ligado à estimulação de aspectos motores, cognitivos, de processamento sensorial e psicossocial através da Montaria tradicional ou adaptada ou da Terapia de solo”, explica Dra. Rebecca. 


A terapeuta ocupacional acrescenta que “as condutas podem se espelhar em demandas que o praticante traz do seu cotidiano, da sua casa, das suas atividades básicas e instrumentais de vida diária, que podem ser estimuladas de uma maneira diferente na linguagem do cavalo, por meio de movimentos, posicionamentos e gestos.” 


Experiência profissional


Dr. Fernando conta que sua rotina de trabalho inclui o atendimento de 150 praticantes por semana com sua equipe. “Dos 150, atendo 80 e mais quatro terapeutas atendem o restante. Fico 8 horas em cima do cavalo há 32 anos. Sou o primeiro no Brasil. São quase 50 mil horas, quase 100 mil atendimentos e 160 mil quilômetros a cavalo.” Ele recorda um caso com um paciente que, na época, tinha quatro anos de idade.  “— Tio Fernando, você gosta muito de cavalo, né?” E eu respondi que gostava muito de cavalo. E o menino continuou: “— E você anda a cavalo todo dia? Respondi que sim. “— E o dia inteiro? Disse que sim, o dia inteiro. Aí ele falou: “— Você não trabalha não? Respondi: “— Eu não trabalho, mas não fale a ninguém, tá?” Para as crianças, a Equoterapia é um prazer, um lazer, é lúdico e para mim também, é como respirar. Faço com muito carinho e com muito amor e o retorno que temos dos pais, dos pacientes é o que nos move. Sou muito grato a Deus pela minha profissão, por ter me dado a oportunidade de estar com essas crianças, com esses pacientes e com os cavalos, que me ensinam todos os dias”, conclui. 


Dra. Rebecca Martins relata que a Equoterapia é como um sopro de ar fresco no cotidiano. “São empolgantes os desafios que a vivência com os equinos pode nos proporcionar. Pela sua grandeza, sua potência e, ao mesmo tempo, sua prudência e cumplicidade. Uma forma muito diferente de lidar com os processos de saúde-doença, já que encontros com cavalos são geralmente muito estimulantes!” Ela diz que é difícil nomear apenas uma experiência especial, entre tantas. “Talvez ver uma criança que chega amedrontada à Equoterapia com três anos de idade, que chora nas primeiras semanas de adaptação com um déficit motor importante, ausência de controle cervical e de tronco e vê-la se apaixonando completamente pelo cavalo, sempre risonha ao longo dos anos e de seu desenvolvimento motor promissor. Marcante também é ouvir de um praticante que faz uso de cadeira de rodas para se locomover há anos que o cavalo trouxe a possibilidade de sentir suas pernas alongadas, de sentir que andar é possível, seja pela primeira vez, ou pela vivência de um retorno da funcionalidade perdida ao longo do tratamento. Pretendo seguir colecionando vivências e nutrindo um profundo reconhecimento pela grandeza, graça e amor aos cavalos que partilham sua vida e sua força conosco. Demos um passo importante recentemente em relação à Lei 13.830, de 2019, que regulamenta a equoterapia como método de reabilitação de pessoas com deficiência e foi sancionada pelo Presidente da República. Espero ver muitos terapeutas ocupacionais atuando nessa área que cresce cada vez mais no Brasil”, diz Dra. Rebecca.