As perdas que o modelo EaD de graduação impõem para a Fisioterapia, para a Terapia Ocupacional e para a população
Modalidade com regras flexibilizada pelo Decreto Presidencial nº 9.057, de 2017, o Ensino a Distância para a graduação de carreiras da área da Saúde é precário para a formação de competências e habilidades técnicas dos futuros profissionais.

Desde 2017, com a tese de democratizar e ampliar o acesso da população aos cursos da saúde, o Ministério da Educação (MEC) passou a flexibilizar a oferta de cursos de graduação na modalidade de ensino a distância. 


Desde então, a formação em nível superior nas carreiras da Saúde - com exceção da Medicina, Odontologia e Psicologia - viu crescer o número de cursos e de abertura de vagas de graduação na modalidade EaD.


Segundo o site e-Mec (emec.mec.gov.br) já estão autorizados na modalidade EaD, 77 cursos de Fisioterapia (45 desses já em funcionamento), com 263.621 vagas abertas. Para a Terapia Ocupacional, 6 cursos foram autorizados (4 deles em funcionamento), com 3.600 vagas. 


Em ambos os casos, os cursos operam na modalidade semipresencial, com algumas poucas aulas presenciais por mês. 


Medidas de distanciamento social colocaram EaD em evidência

O cenário da pandemia da COVID-19 parece ter despertado o interesse de mais instituições de ensino em adotar a modalidade para a formação em Fisioterapia e em Terapia Ocupacional. Dos 77 cursos de Fisioterapia EaD citados acima, 27 foram autorizados entre 2020 e 2021.

Esse mesmo cenário, cujas necessidades de controle sanitário e medidas preventivas forçaram à oferta das aulas da graduação presencial na modalidade remota, acabaram por colocar em evidência os problemas da formação EaD para as profissões da área da Saúde.

Segundo Dr. Rivaldo Novaes, fisioterapeuta, docente na UniSanta, em Santos e coordenador da Comissão de Memória Histórica da Fisioterapia do Crefito-3, não houve qualquer discussão prévia dessa medida com representantes das profissões, e nem houve qualquer preocupação em se respeitar o que está definido nas Diretrizes Curriculares Nacionais da Fisioterapia. “As DCN são de 2002, e foram planejadas para um contexto de aulas presenciais”.


Dr. Rivaldo Novaes destaca que todas as 4 mil horas de duração do curso de graduação foram entendidas como fundamentais para a formação integral do profissional, porém em um contexto de ensino integralmente presencial. Para ele, essa proposta não se concretiza num cenário em que a formação ocorre por meio de um “pacote” de aulas gravadas, com alguns dias por mês de aulas práticas. 


Fragilidades do EaD para a graduação em Fisioterapia e em Terapia Ocupacional

Com a necessidade de evitar a proximidade entre as pessoas, na tentativa de conter o aumento de casos da COVID-19, todos os cursos de graduação em Fisioterapia e Terapia Ocupacional foram forçados a adotar o ensino a distância, para garantir a continuidade das atividades. Essa experiência de EaD imposta aos docentes e alunos, revelou as principais fragilidades desse modelo.

Dr. Cleber Henrique de Melo, terapeuta ocupacional, conselheiro do Crefito-3 e coordenador de Terapia Ocupacional da Comissão de Educação, Ensino e Pesquisa do Conselho conta que, como docente na graduação em Terapia Ocupacional, ficou claro o impacto negativo desta modalidade remota para os processos de ensino-aprendizagem. “No que se refere aos conteúdos específicos da profissão, as dificuldades para a concretização do raciocínio terapêutico ocupacional ficaram evidentes”.

A mesma preocupação tem o fisioterapeuta Dr. Thiago Marraccini Nogueira da Cunha, conselheiro suplente e coordenador de Fisioterapia da Comissão de Educação, Ensino e Pesquisa do Crefito-3. 


Para que ocorra a formação do fisioterapeuta, e para que este esteja apto a realizar intervenções nos pacientes/clientes/usuários, Dr. Thiago defende ser necessário vivenciar as condições geradas em atividades presenciais. “Na modalidade EaD, os alunos não conseguem o contato direto e ao vivo com professores, com tempo e local estruturados para aprendizagem, comprovação do conhecimento, bem como desenvolvimento de habilidades interpessoais, que só podem ser aprendidas por meio do aprendizado em sala de aula”, adverte.


Dr. Rivaldo Novaes reforça a inviabilidade do modelo EaD no desenvolvimento de competências e habilidades essenciais para o futuro desses graduados. “Apenas no ensino presencial é possível desenvolver no aluno da área da saúde a empatia,  a solidariedade, a compaixão, o saber se colocar no lugar do outro. tudo isso só acontece se você tiver a convivência com professores”.


Consolidação do EaD na Saúde será desastrosa para a população brasileira

Para Dr. Cleber Melo, sendo a Terapia Ocupacional uma profissão que se faz, essencialmente, por meio do contato direto com pacientes/clientes/usuários, é  inconcebível pensar em uma formação no qual esse contato não aconteça durante todo o processo de aprendizagem. ”Uma formação que seja ofertada em outra modalidade que não a presencial, coloca em risco os saberes técnicos-científicos-administrativos da Terapia Ocupacional, e coloca em risco a vida das pessoas que serão atendidas por esses graduados. Lidamos diretamente com pessoas e para isso precisamos estar neste contato diariamente, seja na execução das técnicas, seja nos estágios obrigatórios e não obrigatórios”.

Dr. Rivaldo Novaes vê com essa mesma preocupação os riscos oferecidos pelo EaD para os pacientes/clientes/usuários atendidos pelos futuros fisioterapeutas que venham a ser formados segundo esse modelo, e acredita ser urgente o diálogo das profissões com a sociedade, para expor a desestruturação que as profissões de saúde vão sofrer com o avanço do EaD na área,  e o quanto isso afetará, de forma danosa, a  qualidade do atendimento. “Se essa formação se impuser, será um desastre para o cidadão brasileiro”.