09 de agosto: Dia Internacional dos Povos Indígenas
Criado em 1995, o Dia Internacional dos Povos Indígenas busca garantir autodeterminação e Direitos Humanos às diversas etnias indígenas do mundo.

Nesta segunda-feira, dia 9 de agosto, é celebrado o Dia Internacional dos Povos Indígenas. A data foi criada pela Organização das Nações Unidas (ONU) para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), em 23 de dezembro de 1994, através da Resolução 49/214. A data foi comemorada, pela primeira vez, em 9 de agosto de 1995 e tem por objetivo garantir condições de existência minimamente dignas aos povos originários de todo o planeta, especialmente no que se refere aos seus direitos à autodeterminação de suas condições de vida e cultura, bem como à garantia aos Direitos Humanos. A data também busca conscientizar a população sobre a inclusão dos povos originários na sociedade e relembrar as muitas contribuições culturais e sabedorias milenares transmitidas por esses povos às mais diversas civilizações.


Em 2007, foi aprovada a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos povos originários, documento que reconhece, dentre vários aspectos, a necessidade urgente de respeitar e promover os direitos intrínsecos dos povos originários, tais como a inibição de remoção dos indígenas de seus territórios de modo forçado; o direito à utilização, educação e divulgação dos seus idiomas próprios; direito à nacionalidade própria e outros. 


Fisioterapeutas e Terapeutas Ocupacionais são profissionais que firmaram o compromisso de prestar e garantir serviços de saúde com qualidade a esta população, que tanto sofre com a desassistência do governo e a precariedade no acesso a serviços básicos e essenciais. A fisioterapeuta Dra. Sandra Aparecida Alves Vitório, que atuou, por seis anos, na Unidade Básica de Saúde (UBS) Aldeia Jaraguá - Kwarãy  Djekupé, na cidade de São Paulo, a terapeuta ocupacional, Doutora em Psicologia e Mestre em Ciências Dra. Maria Daniela Corrêa de Macedo, e a graduanda em Terapia Ocupacional Vanessa Carneiro Borges (Nana’io) compartilharam suas experiências e vivências dentro da Fisioterapia e da Terapia Ocupacional e a atuação com os povos originários.  


A Fisioterapia e os povos originários


Dra. Sandra Aparecida Alves Vitório conta que desde novembro de 2015, compôs a equipe multiprofissional da SPDM/PAIS (Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina). “Tive a oportunidade de trabalhar por seis anos na UBS Aldeia Jaraguá - Kwarãy  Djekupé, que fica localizada na cidade de São Paulo. Junto com a equipe multiprofissional e a equipe da UBS, podemos vivenciar de forma ativa e participativa o processo de evolução da saúde indígena”. Como fisioterapeuta, Dra. Sandra contribuiu na saúde dos pacientes indígenas e dos trabalhadores indígenas e não-indígenas por meio de atendimentos individuais, atendimentos compartilhados com a equipe multiprofissional e/ou a equipe da UBS; orientações; matriciamentos; pós-COVID; auriculoterapia; discussões de casos; PTS (Projeto Terapêutico Singular); grupos de alongamento, fortalecimento, consciência corporal, respiração, postura, posicionamento e outras ações, como Outubro Rosa, de prevenção ao câncer de mama, e o Novembro Azul, prevenção ao câncer de próstata. 


“Vale a pena ressaltar sobre o evento, Dia da Beleza Indígena, muito rico em cultura indígena, que acontece anualmente, promovendo saúde e bem-estar biopsicossocial tanto para a população indígena, quanto para os não-indígenas. Ano passado, devido à pandemia, o evento foi virtual. Nesses seis anos, tive um grande prazer e aprendizado em fazer parte da história dessas pessoas, que lutam por manterem vivas suas origens, cultura e histórias. Tenho muito carinho e gratidão por nossos caminhos terem se encontrado”, conclui Dra. Sandra. 



povos originários e a Terapia Ocupacional


A terapeuta ocupacional Dra. Maria Daniela Macedo possui uma trajetória de pesquisas e trabalhos de Mestrado e Doutorado com os povos originários que remetem à sua infância. “Minha história começou, desde a infância, pelos interesses pela cultura popular, diversidade cultural e, principalmente, por ter tido acesso e por ter vivido a maior parte de minha infância e adolescência na cidade de Ubatuba, litoral de São Paulo, por ter convivido com as comunidades quilombolas e com os povos originários, comunidade Guarani, que me proporcionaram ter uma experiência outra em relação à convivência, ao respeito e a toda essa diversidade, inclusive de poder problematizar os processos sociais vividos por esses grupos, que historicamente foram diferenciados do restante da população”, conta. Esses convívios e questionamentos, ainda pequena, do porquê de outros grupos e colegas pertencentes a alguns grupos étnicos marcados pelas questões de raça, gênero e classe serem impedidos de circular pelos mesmos ambientes ou desprovidos dos mesmos acessos, foram levados com Dra. Daniela ao ingressar na faculdade de Terapia Ocupacional, da Universidade Federal de São Carlos. “São questionamentos que levei para a graduação e que, naquele momento, comecei a indagar o porquê que a gente não estudava conteúdos sobre essas dinâmicas de forma mais aprofundada. A gente acessava discussões sobre os povos originários muito superficialmente nas disciplinas de Antropologia, em algumas disciplinas de Humanas, mas com uma dificuldade de acesso, aprofundamento sobre essas variáveis, pensando, principalmente, nas questões étnico-raciais”.


Desta forma, Dra. Daniela conta que se formou uma terapeuta ocupacional que questionava o porquê da invisibilidade desses grupos sociais, inclusive para a profissão e para a área de atuação. A jornada acadêmica teve continuidade com um Mestrado sobre as comunidades indígenas. “A partir desse processo, iniciei meu Mestrado que trabalhou sobre a questão do trânsito de jovens Guarani entre a cidade e a aldeia de Ubatuba, do trabalho com juventudes nessa perspectiva de pensar projetos de vida via Terapia Ocupacional também. A ideia do meu projeto foi conhecer, aprofundar nessas questões principais da juventude indígena que circulava pelas pressões contemporâneas de escolarização, de profissionalização, de renda, em contrapartida com os modos de vida tradicionais, com práticas ancestrais e algo mais vinculado à cultura. A ideia do projeto foi tentar entender alguns desses conflitos, contradições e possibilidades”. Dra. Daniela faz esse apanhado de vivências relatadas para refletir sobre o Dia Internacional dos povos originários. “A partir dessa discussão e um pouco desses acompanhamentos pude vivenciar o quão desconhecemos essas realidades, o quanto historicamente todos esses povos foram invisibilizados e inviabilizados de acessar as políticas públicas, de acessar as relações de forma respeitosa, de uma convivência. Convivendo com esses jovens, pude perceber a normatização de uma prática preconceituosa, racista e limitante para essas pessoas que, quando são tratadas de uma melhor forma, são tratadas pela via do exótico, interessante e não como uma pessoa que tem sua história de vida, suas questões e suas necessidades, principalmente pela necessidade de sobrevivência. Hoje, tenho feito uma discussão que comunga com a importância da data que é a questão das existências de povos que, desde a invasão da América, da forma com que o Brasil e as Américas foram desbravados, através do etnocídio e genocídio, de uma relação totalmente desrespeitosa com os povos orginiários, do quanto esse marco histórico trouxe marcas desse processo de colonização que, enfim, trazem na nossa convivência esses traços da colonialidade, de uma inferioridade aos povos aquietados, o nosso desconhecimento sobre esses povos, de uma reflexão do quanto não acessamos, em um país como o Brasil, onde temos mais de 300 povos e 200 línguas, uma diversidade que não dimensionamos”, analisa.  


A terapeuta ocupacional expõe que toda essa história sempre foi muito velada e contada por outros atores que trazem uma versão de algo muito distanciado da realidade desses povos. “Vejo como algo muito importante esse movimento de se falar sobre esses povos, da categoria profissional da Fisioterapia e da Terapia Ocupacional se importar sobre essa temática, dado que no Brasil e na América Latina, temos na nossa formação enquanto sociedade, enquanto povos latino-americanos, essa ancestralidade toda na nossa essência. Somos originários desses povos, desses encontros que, infelizmente, foram a custo de muitas vidas, de sangue indígena, e que, até hoje, é reproduzido na forma de preconceitos e racismos, inclusive de políticas que vão lidar com a questão da tutela e de uma prática não tão consciente que vem de uma origem colonial de não-reconhecimento da importância cultural, importância do conhecimento de todos esses grupos e povos”, reflete. Dra. Daniela reforça que falar de povos originários é falar dessa diversidade, de algo muito grande e de algo que possui muito conflito, especialmente num país tão grande como o Brasil que traz muitos desafios para as políticas públicas e para as relações de poder. “São povos que sempre foram ameaçados e que, até hoje, sofrem os impactos dessas ameaças de suas existências, principalmente pela questão dos territórios. São povos que necessitam dos territórios para o exercício de seu modo de vida, para o desenvolvimento de sua cultura e manutenção de suas práticas. Com isso, vamos ver que, historicamente no Brasil, mesmo nos momentos de governos mais progressistas, esses povos sempre foram ameaçados e essa ameaça se intensifica a todo o momento.”  


Como terapeuta ocupacional, Dra. Daniela entende que “como técnicos, temos que estar aliados a essas causas, de práticas que vão variar dependendo de qual setor estaremos atuando, seja via políticas de saúde, de assistência social, de direitos humanos, de educação, enfim, independente do setor que exige uma questão técnica para o trabalho com diversidade, que seja pautado na escuta, na empatia, no comprometimento e numa relação horizontal demanda uma postura ética-política de comprometimento com esses povos. O meu trabalho, desde o mestrado, vem caminhando para o conhecimento desses grupos direcionando todo o arcabouço teórico-metodológico da Terapia Ocupacional na compreensão dos fazeres humanos, das atividades humanas e de que forma ela pode ser construída dialogicamente com outros grupos étnicos principalmente no foco da mediação intercultural. O quanto nós, terapeutas ocupacionais, podemos ser mediadores de processos tanto com o setor das políticas públicas quanto na relação entre etnias e na relação com outras categorias profissionais. De um profissional que vai respeitar toda essa prática ancestral, todo esse conhecimento tradicional dialogando com o conhecimento científico, com as práticas científicas criando estratégias para a resolução de problemáticas históricas advindas de encontros históricos. Uma prática profissional que visa o fortalecimento dessas questões identitárias, de uma valorização dessas práticas, da língua, da diversidade étnica e da possibilidade desses modos de vida a favor dos seus territórios e suas territorialidades”, explica. 


“O interessante para se pensar no Dia Internacional dos povos originários é principalmente pensar de que forma nós, profissionais, podemos atender e apoiar, da forma mais respeitosa, todos esse grupos, de uma responsabilização para com esses grupos que necessitam de apoio para manutenção das suas existências, territórios, práticas, ancestralidades, de seus modo de vida que dependem da terra, de onde estão essas territorialidades, dessa relação com toda essa espiritualidade e desse apoio político em prol de uma diferença de perspectiva sobre desenvolvimento econômico, de país, inclusive sobre cuidado em saúde. Um cuidado em saúde mais integral, que requer uma prática mais integrada de vida e não tão dissociada ou tão medicamentosa baseada na cura, mas de um modo de vida mais baseado em práticas articuladas com a questão ambiental, plantas e ervas, dança e do canto, da pintura, do fazer, do alimento, de toda essa integralidade que depende do nosso compromisso para que continue a existir”, conclui Dra. Daniela. 


Relatos de Nana’io 


Vanessa Carneiro Borges, ou Nana’io, é indígena da etnia Tukano e graduanda do 8º período do curso de Terapia Ocupacional da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos). A estudante e sua família vivem em uma aldeia, em uma comunidade chamada Duraka Kapuamu (Ilha de Duraka), que fica próxima ao município de São Gabriel da Cachoeira, no estado do Amazonas. “Meu pai se chama Zeferino Namuncurá e, atualmente, ele é o cacique, liderança da comunidade”. Ela conta que o dia 9 de agosto é uma data importantíssima para os povos originários, especialmente por lutar e defender os direitos desses povos garantidos pela Constituição. “Essa data, para nós indígenas, como também o dia 19 de abril (Dia do Índio), são dias de reflexões para a população brasileira e mundial diante de tantas situações que nós, povos originários passamos. A todo momento, estamos sendo atacados de várias formas e de todos as direções”. 


Nana’io conta que “desde novinha tinha esse desejo de ser uma profissional da saúde para trabalhar e contribuir dentro de minha comunidade e, assim, tentar minimizar os problemas de saúde que até hoje se encontram na região”. A estudante de Terapia Ocupacional diz que esse é um dos objetivos em comum dos acadêmicos indígenas: adquirir conhecimentos na universidade, retornar à aldeia/comunidade, integrar esse “novo” conhecimento, sem anular os aprendizados tradicionais, a fim de resolver ou diminuir os problemas que a comunidade enfrenta no dia a dia. Ela conta que a precariedade em relação ao Sistema de Saúde na região do Rio Negro é um problema que seu povo enfrenta, principalmente pela negligência do governo em disponibilizar medicamentos e outros recursos, bem como à questão geográfica, onde o acesso às comunidades indígenas mais distantes dificulta a locomoção e o acesso ao atendimento.


“A Terapia Ocupacional tem uma visão ampla e humanizada diante de seus pacientes e seus grupos de apoio e foi algo comum já que nós, povos originários, vivemos em coletivo, sempre estamos ajudando um ao outro, seja em situações boas ou ruins. Então, a Terapia Ocupacional pode contribuir, principalmente, pela forma de como o profissional atua com uma sensibilidade significativa diante de uma pessoa que precisa de ajuda, sem anular os meios em que ele vive, pois são esses meios que podem ajudar ou dificultar para a sua melhora”, finaliza a estudante.