No campo de acidentes com queimaduras, fisioterapeutas são agentes tanto na prevenção quanto nos processos de recuperação dos pacientes
Para marcar o Dia Nacional de Luta contra Queimaduras, celebrado em 6 de junho, a Dra. Mariana Merida Carrillo Negrão, fisioterapeuta pós-graduada em fisioterapia dermatofuncional, destaca aspectos da atuação nessa área de especialização.

Autora de 6 livros na área, dentre eles o livro Abordagens terapêuticas nas sequelas de queimaduras, lançado em 2018, Dra. Mariana Merida Carrillo Negrão é supervisora de estágio de fisioterapia dermatofuncional e fundadora do núcleo de atendimento aos pacientes com sequelas de queimaduras da Universidade Anhembi Morumbi- SP.

A Dra. Mariana explica que “as queimaduras são definidas como uma injúria comum e grave na pele ou em outro tecido orgânico, sendo caracterizadas por uma condição aguda e crônica debilitante. Podem ser causadas por agentes químicos, térmicos, elétricos, radioativos, biológicos ou ainda pelo atrito. Podem atingir, além da pele, tendões, músculos e ossos, de forma parcial ou total, levando redução da elasticidade tecidual, as deformidades, a perda muscular severa e a fraqueza muscular, ocasionando limitações na funcionalidade dos pacientes, causando danos estéticos, psíquicos e repercutindo ainda no âmbito familiar, pessoal e profissional desses sujeitos. Elas podem desfigurar e incapacitar, e seu tratamento é longo, por muitas vezes penoso e solitário.1 “

Em relato pessoal, a Dra. Mariana afirma que “após anos atendendo sequelas de queimadura, percebo que em casos de  grandes queimados (com lesões mais profundas, e mais extensas) precisa lidar com a ‘morte’ do antigo e aceitação do novo eu. A nova imagem corporal, a nova rotina com os tratamentos, a angústia e a lentidão de todo processo de recuperação, a expectativa do retorno às atividades profissionais ou começar uma nova atividade profissional dependendo as limitações adquiridas, as mudanças e o impacto da queimadura nas relações afetivas, o preconceito das pessoas e os olhares curiosos e cruéis de alguns nas ruas... São tantas mudanças e tanto impacto da queimadura que cada paciente descobre e vivencia uma nova realidade, e ainda sou capaz de me surpreender com o tamanho das transformações que as queimaduras causam em suas vítimas”.

A Dra. Mariana Negrão também relata que, segundo Costa e colaboradores (2016)2, as queimaduras estão entre as principais causas externas de morte registradas no país, perdendo apenas para os acidentes automobilísticos e homicídios. A Sociedade Brasileira de Queimaduras3 afirma que as lesões totalizam cerca de 1 milhão de casos novos ao ano, e percebeu-se um aumento dos casos na pandemia devido ao aumento do uso do álcool em gel e da liberação do álcool líquido que estava suspensa desde 2012, conforme cita o médico Junior do hospital de Barretos4, esse aumento também foi divulgado pelo Crefito-35 em julho de 2020”.

A Dra. Mariana também destaca o conhecido impacto que a queimadura traz aos pacientes, tanto no âmbito pessoal, como no profissional e também financeiro, não só a pessoa como também ao sistema de saúde. “Daga (2015)6 cita que as queimaduras são apontadas como um grave problema para a saúde pública brasileira, sendo responsáveis por acarretar elevado custo com internações hospitalares. No entanto, o impacto econômico da queimadura não se limita ao tratamento, mas inclui muitos outros aspectos, como dias de absenteísmo no trabalho, custos com a recuperação, incapacidades diversas e danos emocionais. Muitos desses aspectos decorrem das morbidades pós-queimadura que, por vezes, prolongam o tempo de recuperação e o acompanhamento desses indivíduos”.

Atuação do fisioterapeuta com pacientes vítimas de queimaduras

Dra. Mariana explica que “o fisioterapeuta pode atuar com os pacientes com queimaduras desde a fase aguda, na fase hospitalar (desde a UTI até a enfermaria, tanto na parte respiratória como na motora) até o processo de recuperação e alta completa na fase chamada de ambulatorial”.

Ela revela, ainda, que são muitas as possibilidades para os profissionais que se encantam por essa área.

“Podemos ainda atuar como agentes de prevenção, fazendo campanhas de orientação sobre prevenção de queimaduras, sobre os cuidados imediatos e como proceder no momento da queimadura (nos primeiros socorros) ”.

Papel do fisioterapeuta na equipe multiprofissional de assistência a vítimas de queimaduras

Dra. Mariana enfatiza que a atuação com paciente queimado é muito ampla pois envolve diversas áreas, não só diversas especialidades dentro da fisioterapia, mas um intercâmbio diário de informações entre a equipe.

“São médicos dermatologistas, enfermeiros, fonoaudiólogos, psicólogos, cirurgiões de diversas especialidades, nutricionistas, a lista é imensa de profissionais que se envolvem para reabilitar esses pacientes. É fundamental a troca e a sinergia da equipe para que os trabalhos sejam coordenados em função da melhora do paciente”, destaca a Dra. Mariana

“Aprendemos todos os dias, a troca é imensa, aprendemos sobre as cirurgias, os enxertos, o que podemos ou não fazer, debatemos como devem ser os exercícios, as cargas, os objetivos dos médicos com as cirurgias. Cobramos dos pacientes os exercícios propostos pelo profissional de fonoaudiologia, falamos da importância em realizar as atividades, analisamos o estado geral do paciente e insistimos sobre a importância do suporte emocional e das terapias, aprendemos uns com os outros e somos uma rede de apoio  em busca de um único ideal: a recuperação do paciente”.

Experiência na assistência a pacientes vítimas de queimaduras

A seguir, relato da Dra. Mariana Negrão sobre sua vivência profissional na assistência a pacientes vítimas de queimaduras:

Nada fica isento de transformação pelo fogo, o fogo transforma qualquer matéria e transforma também as pessoas. Ninguém sai ileso quando opta por trabalhar com esses pacientes. E é isso que mais me encanta no atendimento ao paciente queimado. Vários foram os momentos em que eles me transformaram como pessoa e profissional, vou listar os dois que levo com muito carinho.

Um dia que eu recebi uma paciente, grande queimada, que estava em fase ambulatorial e ela me olhou e disse: estou viva é isso que importa, tenho que ser grata, tem gente pior do que eu, não tenho o direito de estar mal. Naquele momento eu vi que ela falava aquilo para ela se sentir melhor. Olhei para ela e disse: Você tem todo direito de estar mal, de não estar bem, de estar cansada, frustrada e chateada por esse longo processo. O fato de você ser grata a Deus pela nova chance e nova vida, não muda o fato de você ter dor, limitação e não estar bem. Eu e meus alunos estamos aqui para te ajudar e te apoiar, e ajudar você com sua nova realidade e a superar suas limitações. Mas entendemos que muitas vezes não estamos bem, e está tudo bem, vamos superar isso juntas e você não precisa ser guerreira o tempo todo. Ela me abraçou e chorou muito, disse que sempre falam o inverso e que pela primeira vez ela sentiu que ser grata a vida e estar feliz com a nova realidade não precisariam estar juntas. Após o atendimento recebi uma mensagem maravilhosa dizendo que ali ela se sentia bem e podia ser ela mesma e que isso a estava ajudando a continuar a fisioterapia e não desistir da vida.

Uma outra paciente nos contou que por duas vezes, parou sobre o viaduto próximo da universidade, pensando em suicídio e desistiu por lembrar de toda atenção, carinho e sua evolução com as cicatrizes já tardias após ter iniciado o tratamento conosco na Universidade, pois muitos diziam que ela precisava aceitar as cicatrizes como eram e que não teria melhora mas nós mostramos que era possível ainda melhorar e que faríamos o que estivesse ao nosso alcance para isso, e que para ela pequenas melhoras eram o combustível para continuar vivendo.

Nesses momentos percebemos como nossa profissão é maravilhosa e nos permite transformar a vida das pessoas: com amor, empatia, um trabalho ético e científico, sem enganar o paciente usando os recursos que temos em favor da vida e da saúde física e também o aspecto estético que também é uma das áreas dentro da dermatofuncional. Nossa atuação não se restringe a ganho de movimento, alongamento, exercícios. Nós ajudamos o paciente a ter suas funções de volta, a ser independente, a ressignificar suas vidas, auxiliamos no resgate da vontade de viver, de sonhar, de lutar. Auxiliamos na reinserção destes seres humanos a suas atividades profissionais, fazemos adaptações, treinamos atividades que ainda não estão adequadas, vivemos a superação todos os dias.

É impossível não ser transformado por esses pacientes. O fogo os transformou, mas eles nos transformam todos os dias em fisioterapeutas mais humanos, mais empáticos e mais felizes. Me sinto completamente realizada atuando com pacientes com sequelas de queimaduras, sinto que encontrei neles meu propósito de vida e sou grata a profissão que escolhi por me permitir viver isso.

 

Para mais informações sobre o tema Queimaduras:


Sociedade Brasileira de Queimaduras (SBQ)

https://www.sbqueimaduras.org.br

Cartilhas informativas, eventos na área, cursos e palestras.

 

Revista Brasileira de Queimaduras

http://www.rbqueimaduras.com.br/

Revista científica.

 

Associação Nacional de amigos e vítimas de queimaduras (ANAVIQ)

http://anaviq.org.br/

Associação para acolhimento ao paciente queimado ,e de luta por políticas públicas a esses pacientes.

 

Referências:

1. Negrão MMC (2018). Abordagens Terapêuticas nas sequelas de queimaduras. Ed, Estetica Experts.

2. Costa ACSM, Santos KA, & Santos CRV. (2016). Intervenção fisioterapêutica no paciente queimado: uma abordagem pneumofuncional em estudo piloto. Revista Brasileira de Queimaduras. 15(2):69-73.

3. Sociedade Brasileira de Queimaduras (2020) Disponível em: https://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/22630b-NA_-_Prevencao _Queimaduras_tempos_Covid19.pdf; acesso em: 05 de fevereiro de 2021. P

4. Junior JF. (2019) Queimaduras crescem durante pandemia. Disponível em: https://site.hcrp.usp.br/queimaduras-crescem-durante-pandemia/

5. Crefito 3. Uso indiscriminado de álcool 70% aumenta casos de queimaduras durante pandemia. Disponível em: http://www.crefito3.org.br/dsn/noticias.asp?codnot=8055

6. Daga H, Morais IH, & Prestes MA. (2015). Perfil dos acidentes por queimaduras em crianças atendidas no Hospital Universitário Evangélico de Curitiba. Revista Brasileira de Queimaduras, 14(4):268-72.